Luiz-Carlos-Cancellier-830x551
 Não pesava sobre Cancellier acusação de ter participado da maracutaia (Foto: Jair Quint/Agecom/UFSC)

Suicídio de reitor da Universidade Federal de Santa Catarina coloca a questão da banalização das prisões temporária e preventiva em um novo e trágico patamar

No último 14 de setembro cerca de 100 policiais federais saíram às ruas de Florianópolis, de Itapema, no interior catarinense, e de Brasília para cumprir mandados de prisão expedidos pela 1ª Vara da Justiça Federal de Santa Catarina. A operação foi deflagrada no âmbito das investigações de desvios de recursos da educação pública na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Entre os mandados assinados pela juíza Janaina Cassol Machado estava o da prisão do próprio reitor da universidade, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, a pedido da delegada Erika Mialik Marena, que a imprensa do estado se apressou para identificar como “delegada que iniciou a Lava-Jato”, como que discernindo em sua indumentária a cruz vermelha dos cruzados — sinal, portanto, de bom combate contra crassa e grossa corrupção.

Não pesava sobre Cancellier, porém, propriamente acusação de ter participado da maracutaia, ocorrida antes da sua gestão, que teve início em maio de 2016, mas sim a suspeita de que ele atrapalhava as investigações sobre os desvios que tampouco foram milionários, mas sim da ordem de R$ 300 mil, na UFSC. A suspeita sobre o reitor foi levantada com base nos dedos em riste de uma dupla de desafetos seus na instituição. Não obstante, foi o suficiente para que a doutora Janaina mandasse ir em cana o responsável de reputação ilibada por uma das 10 mais importantes universidades brasileiras, sem sequer ouvi-lo antes a respeito e talvez sem jamais ter ouvido falar que até os Vade Mecuns da Idade das Trevas recomendavam à autoridade inquisitorial que evitasse tomar medidas extremas contra uma pessoa com fundamento apenas no depoimento de terceiros.

Cancellier seria libertado no dia seguinte, 15 de setembro, por decisão de uma juíza substituta que não encontrou no que encontrou a “delegada que iniciou a Lava Jato” qualquer motivo que justificasse sua prisão. A juíza titular, porém, afastou o reitor de suas funções e o proibiu de entrar na universidade à qual dedicara sua vida, abrindo-lhe uma desonrosa exceção das 15h às 18h de um dia determinado, este 5 de outubro, para que ele pudesse orientar alunos de mestrado e doutorado do Departamento de Ciências Jurídicas.

Em artigo publicado no jornal Globo no último 28 de setembro, portanto a oito dias da data da orientação autorizada, mas cinco antes de se atirar do alto de um shopping center de Florianópolis, Cancellier fez o que seria seu último — ou penúltimo, como se vê — esforço para pôr os pingos no “is” sobre o que chamou de um processo de “humilhação” e “vexame” na UFSC que “não tem precedentes na história da instituição”:

“Não adotamos qualquer atitude para abafar ou obstruir a apuração da denúncia. Agimos, isso sim, como gestores responsáveis, sempre acompanhados pela Procuradoria da UFSC. Mantivemos, com frequência, contatos com representantes da Controladoria-Geral da União e do Tribunal de Contas da União. Estávamos no caminho certo, com orientação jurídica e administrativa. O reitor não toma nenhuma decisão de maneira isolada. Tudo é colegiado, ou seja, tem a participação de outros organismos. E reitero: a universidade sempre teve e vai continuar tendo todo interesse em esclarecer a questão”.

Luiz Carlos Cancellier de Olivo tinha 60 anos de idade e 40 de UFSC, com longa carreira da discência à reitoria. Transcorreram-se poucos mais de 15 dias entre a decretação da sua morte e o cumprimento da “sentença”. O próprio procurador-geral do estado de Santa Catarina, João dos Passos Martins Neto, soltou nota oficial do seu gabinete expressando grande pesar pelo suicídio do reitor da UFSC e profunda indignação com a violência da qual foi o resultado:

“A tragédia de sua partida ocorre sob condições revoltantes. As informações disponíveis indicam que Cancellier padeceu sob o abuso de autoridade, seja em relação ao decreto de prisão temporária contra si expedido, seja em relação à imposição de afastamento do exercício do mandato, causas eficientes do dano psicológico que o levaram a tirar a própria vida”.

Processo legal e processo ‘necrosante’

Em sua nota contundente, Martins Neto pediu mesmo “a apuração das responsabilidades civis, criminais e administrativas das autoridades policiais e judiciárias envolvidas” nas medidas tomadas contra Cancellier, ressalvando que tudo precisa ser feito sob aquilo que o procurador-geral aponta ter faltado à mobilização dos representantes do Estado brasileiro contra o reitor agora morto: o respeito ao devido processo legal.

Já Rogério Christofoletti, professor da universidade até há poucos dias regida por Cancellier, ressaltou o papel da imprensa em toda essa escalada policial-judiciária que resultou mortal, mostrando, em detalhado artigo publicado no Objethos, Observatório de Ética Jornalística, como toda a produção de sentido das manchetes e demais referências de capa sobre os desvios na UFSC confluiu para a implicação do reitor na fraude (Muitas como essa, da RBS: “Reitor da UFSC é preso em operação da PF que investiga desvio de recursos”):

“A difamação é um processo rápido, insidioso e necrosante. Quando um conjunto de suspeitas recai sobre uma pessoa ou organização e quando essas suposições ganham caráter público na mídia, a potencialidade do dano sobre a imagem é avassaladora. Não há controle para deter a avalancha de pré-julgamentos e de condenações apressadas. Nas redes sociais, o festival de linchamento moral de Cancellier já estava acontecendo. Não só isso. A UFSC, seus docentes, técnicos e alunos foram motivo de comentários de escárnio, intolerância e ódio, abrindo espaço para críticas à educação pública e gratuita e ao papel da universidade na sociedade”.

Ainda sobre esse ponto, o professor de ciência política Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília (UnB), sempre atento às nuances, por assim dizer, do discurso dos jornais, notou que mesmo depois do suicídio de Cancellier seguia funcionando a voraz máquina difamatória que lhe trucidou o ânimo para seguir em frente. Luis Felipe chamou a atenção para o que disse a Folha de S.Paulo ao noticiar a morte de Luiz Carlos Cancellier de Olivo: que ele fazia parte de um grupo “suspeito de desviar R$ 80 milhões em recursos que deveriam ser investidos em programas de Educação à Distância”.

“Há duas inverdades na frase. O projeto totalizava R$ 80 milhões; o valor que se suspeita que tenha sido desviado é alto, mas não chega a 0,5% desse montante. E, mais importante, a acusação que pesava contra o Cau não era de participar do desvio, que teria ocorrido antes de sua gestão, mas de estar ‘obstruindo as investigações’ (acusação que ele negava)”, corrigiu o professor, acrescentando, adiante: “Ao noticiar desta maneira a morte do reitor, a Folha trabalha para esvaziar o sentido de denúncia contra a arbitrariedade que Cau buscou imprimir ao sacrifício de sua própria vida”.

A infausta seção “Erramos”, já sem grandes serventias senão a do bordão protocolar “A Folha errou”, quando se trata de assassinatos de reputações, agora tem tudo para atingir um novo e macabro nível de inutilidade, sem qualquer chance de reparar o dano de um cadáver de verdade espatifado contra o chão. Talvez seja o caso de a seção ser rebatizada com a conjugação, na mesma primeira pessoa do plural, sempre no pretérito perfeito, de um outro e mais grave verbo de confessionário.

A protagonista de uma das mais polêmicas, e mais celebradas, produções originais da Netflix, 13 Reasons Why, é uma suicida que deixa não exatamente um bilhete no bolso na calça que veste o corpo que jaz, mas sim gravações em fitas K7, para que, depois que pusesse fim à própria vida, as pessoas finalmente parassem para ouvi-la e para conhecer a menos popular das tantas histórias que eram contadas sobre ela: a verdade. “A verdade — ela diz — nem sempre é a versão mais emocionante das coisas, ou a melhor, ou a pior. É algo no meio. Mas ela merece ser ouvida e lembrada”.

Opinião & Noticia

Por  Hugo Souza

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *